terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Boas Festas!

Finda mais um ano. Agradeço aos que visitam o blog. Encerro as postagens de 2009 com dois poemas de dois Escritores de minha predileção: Machado de Assis e Jorge Luis Borges. Até 2010.

Soneto de Natal (Machado de Assis)

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"


Final de ano (Borges)
Nem o pormenor simbólico
de substituir um dois por um três
nem essa metáfora baldia
que convoca um lapso que morre e outro que surge,
nem o cumprimento de um processo astronómico
aturdem e solapam
o altiplano desta noite
e nos obrigam a esperar
as doze irreparáveis badaladas.
A causa verdadeira
é a suspeita geral e confusa
do enigma do Tempo;
é o assombro ante o milagre
de que a despeito de infinitos acasos,
de que a despeito de que somos
as gotas do rio de Heraclito,
perdure algo em nós:
imóvel.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Será arte?

Hoje, li o curtíssimo poema de Ferreira Gullar, intitulado "Pintura". Encontrei-o no livro "Barulhos", em rápida visita a uma livraria. O que muito me chamou a atenção foi o fato de que esse maranhense-comunista, além de Poeta, é também pintor. Deixo aqui, uma réstia da mistura de suas múltiplas faces.


Pintura

Eu sei que se tocasse
Com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos

Dilema

A pretensão me degrada
a humildade me deprime
e assim a vida é lesada:
ora é virtude ora é crime


Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
Outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Ciúme e a Semiótica


“Como ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo em sê-lo, porque temo que o meu ciúme fira o outro e porque me deixo sujeitar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.” (Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso).


Esta postagem é dedicada ao ciúme: "estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem"(Dicionário Houaiss).


Na verdade, o repentino interesse pelo tema deve-se à leitura (bem como às proveitosas discussões com o prof. Américo) do clássico Semiótica das paixões, de Greimas e Fontanille. Nesta obra, os autores se valem de um aparato teórico rigoroso, para simularem e darem conta da complexa manifestação dessa intrigante paixão humana. Sem pretensão de esgotar ou aprofundar o assunto, uma vez que minha leitura ainda é parcial, deixo aqui somente pequenos fragmentos de texto desse livro surpreendente, ainda pouco explorado pelos semioticistas:


" O ciúme aparece de súbito no fundo de uma relação intersubjetiva complexa e variável, presente por definição ao longo de todo percurso passional: o temor de perder o objeto só se compreende aqui em presença de um rival ao menos potencial ou imaginário, e o temor do rival nasce da presença do objeto de valor que funciona como pivô" (p. 171).


"Se o espetáculo fundamental do ciúme é o da junção modalizada do rival e do objeto, o ciumento é, enquanto observador, excluído da relação de junção [...]. É por isso que o sujeito ciumento se acha na impossibilidade de segmentar de outra forma o dispositivo actancial, e a cena odiada ou apreendida se lhe impõe; ele mesmo se apresenta, com relação a seu próprio simulacro passional, como sujeito virtualizado, sujeito sem corpo que não pode ter acesso à cena[...]. O observador do ciúme será efetivamente um 'espectador', isto é, observador cujas coordenadas espaço-temporais referem-se às do espetáculo que lhe é oferecido, mas que não pode, em caso algum, figurar como ator nessa mesma cena" (p. 181).

domingo, 22 de novembro de 2009

Meus Eus e os Outros


Desculpem o sintetismo das últimas postagens. Motivos? Há de sobra, mas não merecem comentários. Prometo alongar a próxima postagem. Deixo abaixo dois poemas de Pessoa.



Tenho tanto sentimento

Que é freqüente persuadir-me

De que sou sentimental,

Mas reconheço, ao medir-me,

Que tudo isso é pensamento,

Que não senti afinal.


Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra vida que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.


Qual porém é a verdadeira

E qual errada, ninguém

Nos saberá explicar;

E vivemos de maneira

Que a vida que a gente tem

É a que tem que pensar.


Fernando Pessoa


Vivem em nós inúmeros;

Se penso ou sinto, ignoro

Quem é que pensa ou sente.

Sou somente o lugar

Onde se sente ou pensa.


Tenho mais almas que uma.

Há mais eus do que eu mesmo.

Existo todavia

Indiferente a todos.

Faço-os calar: eu falo.


Os impulsos cruzados

Do que sinto ou não sinto

Disputam em quem sou.

Ignoro-os.

Nada ditam

A quem me sei: eu 'screvo.


Fernando Pessoa (Ricardo Reis)

sábado, 14 de novembro de 2009

"O que você acha da poesia de Drummond?"


Para bom entendedor, estas palavras bastam:


Que noite mais comprida desde que nasci.

Viajando parado. O escuro me leva

sem nunca chegar. Sem pedir abença

como vou saber que não vou sozinho?

Que o mundo está vivo? Abença papai,

abença mamãe. Mas falta coragem

e peço pra dentro. Dentro não responde.


(Drummond, Noturno)



Confissão


É certo que me repito,

é certo que me refuto

e que, decidido, hesito

no entra-e-sai de um minuto.


É certo que irresoluto

entre o velho e o novo rito

atiro à cesta o absoluto

como inútil papelito.


É tão certo que me aperto

numa tenaz de mosquito

como é trinta vezes certo

que me oculto no meu grito.


Certo, certo, certo, certo

que mais sinto que reflito

as fábulas do deserto

do raciocínio infinito.


É tudo certo e prescrito

em nebuloso estatuto.

O homem, chamar-lhe mito

não passa de anacoluto.


(Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco')

sábado, 7 de novembro de 2009

Darcy Ribeiro em pedaços


Darcy conhecia bem o Brasil: suas origens, seu povo e sua política. Embora seja mais conhecido como o autor de O povo brasileiro, obra-referência nos estudos de Antropologia e Sociologia, demonstrou em outros escritos que também conhecia bem a língua do Brasil. Selecionei dois trechos dessa escrita dorida, sofrida, sem sossego, como a alma brasileira que ele tanto amava e conhecia.



"Eu, pobre de mim, estive tão ocupado em planos e fazimentos, com a vida me jogando daqui pr'ali, desatento de mim mesmo, que até do amor vivi, senão absente, quase sempre meio ausente. E o tempo a me acabar, inclemente. Agora me espanto de ver aquele menino antigo, aquele rapaz tímido, aquele homem feito, posto na idade provecta, respeitável. Só agora, tão tardiamente, sinto a dor dos buracos em mim, em que vivi ausente, desamado, enquanto o tempo me comia os idos. Inapelavelmente"(Testemunho, 1990, p. 25).



Não tenho nada,

Absolutamente nada, a dizer.

Poesia de palavra,

Já não me fala.


Est'outra sim.

Essa aqui sim.

Muda crispada

Dentro de mim.

(Eros e tanatos, 1997, p.151)



quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Era uma vez uma história,...um artista... um lugar ...



Ocorreu-me hoje refletir a respeito da história do Ceará. Os motivos: a) minhas recentes idas ao Passeio Público para participar de um projeto musical que lá ocorre aos sábados e b) a audição da música abaixo, de Ednardo, há muito esquecida em minha memória. A reflexão: são minoria entre nós aqueles que conhecem ou ouviram falar de Passeio Público, Bárbara de Alencar e Ednardo. Não vou convocar o discurso político, da alienação cultural ou dos (pré)conceitos para justificar tal fato, bem como minha falsa inclusão no rol dos privilegiados.
Interessa-me, em vez disso, comentar o quão prazerosa é a experiência de ir a esse belíssimo lugar de Fortaleza e pressentir a ilusória presença dessa figura histórica em cada muro do forte, em cada arvóre ou baobá, assim como no barulho das ondas e no cheiro do mar que ressuscita seus gritos e nos faz respirar um passado de luta, de vergonha e de sangue. E depois... ? Depois... ouvir a canção-poema de Ednardo, esse "ser cearense", que nos convida a eternizar esse eterno pesar...



Passeio Público (Ednardo)


Hoje ao passar pelos lados


Das brancas paredes, paredes do forte


Escuto ganidos, ganidos, ganidos, ganidos


Ganidos de morte


Vindos daquela janela


É Bárbara, tenho certeza


É Bárbara, sei que é ela


Que de dentro da fortaleza


Por seus filhos e irmãos


Joga gemidos, gemidos no ar


Que sonhos tão loucos, tão loucos, tão loucos


Tão loucos foi Bárbara sonhar?


Se deixe ficar por instantes


Na sombra desse baobá


Que virão fantasmas errantes


De sonhos eternos falar


Amigo que desces a rua


Não te assustes, não passes distante


Procura entender, entender


Entender o segredo


Desse peito sangrante

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A memória da solidão


A solidão é tema constante nos textos de Dino Buzzati, escritor italiano, conhecido sobretudo pelo romance O deserto dos tártaros: a história de um jovem soldado, enfurnado em um antigo forte que faz fronteira com um deserto desolador, à espera de um inimigo (os tártaros) que nunca vem. Diante de um marasmo que contamina tudo e a todos, o suposto héroi passa quatro anos (que parecem quinze) de sua vida no forte, amalgamando-se às paredes, à rotina militar sem sentido e ao silêncio do deserto... à espera de algo que talvez não passe de miragem da sua própria solidão.


Hoje, ao reler um trecho de outro livro de Buzzati, intitulado Naquele exato momento, senti essa solidão que, vez por outra, impregna nossa memória e nos faz vasculhar cada espaço da nossa existência à procura de nós mesmos.


Despedida do navio


[...] Minha memória é pobre, conheço-me. Depois de alguns meses, os nomes que hoje são íntimos, instintivos, que penso não esquecer nunca como os dos meus parentes, estes nomes estarão, em grande parte, enfraquecidos, muitos definitivamente esquecidos e inutilmente procurarei recolhê-los no fundo da minha consciência [...] O que abandonará em primeiro lugar a minha memória? Quem será o primeiro a sair da cena ainda tão viva e fervilhante de personagens? Certamente não o perceberei. À noite, durante o sono, coisas e homens escaparão para fora de mim, um a um, e eu nada saberei. Somente após meses, ou anos, uma noite, cheio de nostalgia, farei uma espécie de chamada. Quem responderá? Oh, poucos, muito poucos. Completando-se, assim, a solidão dos homens.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Lembrando Fernando Pessoa


Resolvi hoje arriscar uma alusão poética, em homenagem a Fernando Pessoa:


Vagar...

devagar

de vagar

no vagar

navegar


(Ricardo Leite)


"O sonho é ver as formas invisíveis da distância imprecisa, e, com sensíveis movimentos da esperança e da vontade, buscar na linha fria do horizonte a árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte - Os beijos merecidos da verdade."(Fernando Pessoa).

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A ressaca de Machado


Nunca é demais expressar a admiração que nutro pela obra de Machado de Assis. Li vários de seus livros na adolescência, contudo, sancionados pela obrigação escolar, não encontrei maturidade devida para apreciá-los. É sempre um prazer indescritível pegar um de seus livros e, ao relê-lo, encontrar pérolas como a descrição dos olhos de Capitu por meio da metáfora da ressaca, em Dom Casmurro. São trechos imortais da literatura em Língua Portuguesa. Nunca ficarão gastos. Utilizei-o anteontem, em minha aula de Estilística do Português:

"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me".

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Os cus de Judas" Lobo Antunes


Não li Antônio Lobo Antunes, escritor português, tido por muitos como o maior nome da literatura em língua portuguesa da atualidade, superando, inclusive, seu patrício José Saramago. Foi-me apresentado, para falar a verdade, recentemente, por Tércia Montenegro: escritora cearense renomada, minha colega na Universidade e fã declarada de Lobo Antunes.


Ocorre que, de uns tempos para cá, ouço e vejo amiúde seu nome, seja nas prazerosas conversas livrescas com Tércia, seja nas livrarias e sebos que costumo frequentar. Em decorrência, quem sabe, dessa conjugação de fatores, caiu-me à mão para simples folheamento um de seus livros: "Os cus de Judas". Sendo fã confesso de Saramago, admito que folheei o livro tentando pesar na balança o estilo dos dois escritores. Não sei se procedem as fofocas sobre uma possível rivalidade entre eles, mas o fato é que em poucas folheadas garimpei o trecho abaixo, que põe à mostra o texto refinado do escritor. Outras postagens virão.


“Já reparou que a esta hora da noite e a este nível do álcool o corpo se começa a emancipar de nós, a recusar-se a acender o cigarro, a segurar o copo numa incerteza tacteante, a vaguear dentro da roupa oscilações de gelatina? O encanto dos bares, não é, consiste em, a partir das duas da manhã, não ser a alma a libertar-se do seu invólucro terrestre e a seguir verticalmente para o céu no esvoaçar místico de cortinas brancas das mortes do missal, mas a carne que se livra, um pouco espantada, do espírito, e inicia uma dança pastosa de estátua de cera que se funde até terminar nas lágrimas de remorso da aurora, quando a primeira luz oblíqua nos revela, com implacabilidade radioscópica, o triste esqueleto da solidão sem remédio" (...p. 43).

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Saramago e a crônica


O livro A Bagagem do Viajante, de José Saramago, confirma a tese de que mesmo um genêro como a crônica, literariamente "insosso" e "mimeticamente urbano" (opinião particular em relação às crônicas contemporâneas em língua portuguesa), pode alçar-se à arte literária, basta que haja um grande escritor erigindo este arcabouço linguístico. Eis um excerto do livro:




"Almocei na fronteira do ar livre, rente a uma janela aberta. Era já o meio da tarde, e o restaurante estava deserto: o sol prendera-me na praia, envolvera-me de torpor, e entre o banho e a areia se tinham escoado as horas. É uma sensação agradável esta de ter o corpo um pouco áspero de sal, a antegozar o duche que nos espera em casa. E enquanto a costeleta de vitela não vem, vai-se beberricando o vinho fresco e estendendo a manteiga em bocadinhos de pão torrado, para enganar a fome subitamente acordada. Vida boa.


O momento é tão perfeito que podemos falar de coisas importantes sem que as vozes tenham de subir, e nenhum de nós pensa em ganhar no diálogo e ter mais razão do que a pode ter um comum ser humano que respeite a verdade. Além disso, é verão e, como eu disse, estamos na fronteira do ar livre. A aragem faz estremecer umas plantas cheirosas a que podemos chegar com os dedos e em volta das quais zumbem os insectos do tempo. Quebrada pela folhagem, há uma réstia de sol que se derrama pelas madeiras envernizadas da janela. Vida boa.


Temos a pele doirada e sorrimos muito. No interior do restaurante levanta-se uma grande labareda: é a cozinha que oferece os seus mistérios. Logo a seguir o empregado traz a costeleta, rescendente no seu molho natural, e nós infringimos as mais comezinhas regras da gastronomia mandando adiantar-se mais vinho branco. E ela vem, a garrafa, com a sua transpiração gelada e o truque mágico de embaciar os copos que a recebem. Ah, vida boa, vida boa.


Estamos agora calados, absorvidos na delicada operação de separar a carne do osso. Sob o gume da faca as fibras macias separam-se sem custo. O molho penetra nelas, aviva-lhes o sabor-oh, que bom é comer assim, depois de um ardente dia de praia, no restaurante de janelas abertas, com perfumes de flores e este cheiro maior do verão.


Voltamos a conversar, dizemos coisas vagas e lentas, inteligentes, numa plenitude de bem-aventurados. O sol, que desceu um pouco mais, desliza nos copos, acende fogos no vidro e dá ao vinho uma transparência de fonte viva. Sentimo-nos bem, com o restaurante só para nós, rodeados de madeiras fulvas e toalhas coloridas.


É nesta altura que se dá o eclipse. Uma sombra interpõe-se entre nós e o mundo exterior. O sol afasta-se da mesa violentamente, e a mão de um homem passa a moldura da janela, avança e fica imóvel por cima da mesa - de palma para cima. O gesto é simples e não traz palavras a acompanhá-lo. Apenas a mão estendida, à espera, pairando como uma ave morta sobre os restos do almoço.


Ninguém fala. A mão recolhe-se apertando a esmola, e, sem agradecer, o homem afasta-se. Entreolhamo-nos devagar, com os lábios deliberadamente cerrados. De repente, tudo sabe a inútil e a cobardia. Depois, com mil cautelas, pegamos no carvão em brasa. Se não estivéssemos a almoçar, teríamos dado a esmola? E que teria acontecido se a recusássemos? Sentiríamos depois mais remorsos que de costume? Ou houve simplesmente o medo de que a mão seca e escura descesse como um milhafre sobre a mesa e arrancasse a toalha, no meio do estilhaçar dos vidros e das louças, num interminável e definitivo terramoto?"

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Lavoura Arcaica de Raduan Nassar



Não é exagero afirmar que Lavoura Arcaica é uma obra-prima da literatura brasileira. Quem já leu sabe disso. De estrutura densa, capaz de penetrar as superfícies movediças de temáticas como religião, família, incesto, sem se deixar engolir pelo previsível, o livro torna-se primoroso sobretudo pelo modo como o autor utiliza a linguagem. Raduan Nassar garimpa a língua em busca da palavra mais certa, da expressão mais pura, do conceito mais distante do comum. Daí, a trama se construir através de metáforas e repetições (atenção especial à pontuação), cuja recorrência determina o andamento e a tensão da trama, resultando em um texto que mais encontra identidade no campo da poesia que no da prosa.




Embora o filme seja muito bom, a leitura do livro torna-se imprescindível. Vejam os trechos abaixo:


"Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta;"

“Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse “para onde estamos indo?” -- não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rígido, desprovido de qualquer dúvida: “estamos indo sempre para casa”.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Saramago e a metáfora do sangue


Uma coisa que admiro em um escritor é o modo como constrói metáforas, este insólito fenômeno linguístico que irrompe do (no) texto, provocando uma surpresa no vivido. Assim, são as boas metáforas: ora impetuosas, sorrateiras e insolentes, ora brumosas, ternas e eternas. Como o Sangue.




por José Saramago


Todo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos.

Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.

sábado, 15 de agosto de 2009

Anotações de Valéry

Uma postagem rápida. Algumas citações do genial Paul Valéry:

“o que há de mais profundo no homem é a pele”.

“o poema - essa hesitação prolongada entre o som e o sentido”.


"No poeta:
O ouvido fala,
A boca escuta;
É a inteligência, o despertar, que dá à luz o poema;
É o sono que vê com clareza;
A imagem e o fantasma é que enxergam,
A falta e a lacuna é que criam."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Em recuperação

Semana difícil esta que passou: perdi meu avô (com quem aprendi a valorizar as coisas simples da v ida) e tive que me submeter a uma cirurgia um pouco delicada. Mas... hoje a vida retoma parcialmente seu fluxo normal. Daí, a escassez e concisão das postagens durante o período que passou. Já dizia Sénega:

"Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte."

Deixo o poema do "Poetinha" como reflexão:

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O delírio de Rosa

Delírio /Guimarães Rosa (extraído do livro de poemas "Magma")

No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios...
Deixa aberta a janela...

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna...
Apaguemos a luz...

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?...

Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte,
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti....

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sigismund Krzyzanowski: O marcador de páginas


Pouco se sabe sobre esse escritor russo (cujo nome polonês é impronunciável), descoberto depois da Perestroika, quando já era praticamente impossível saber mais detalhes sobre sua biografia. Fotografia, por exemplo, nenhuma. Seu único livro conhecido - O marcador de páginas - é composto de seis novelas escritas durante a década de 1920. São seis narrativas originais, calcadas num realismo fantástico construído de maneira fascinante, que bem poderiam ter saído das páginas de Jorge Luis Borges, se não fosse o detalhe de Krzyzanowski ter vivido na URSS durante os anos 20-40, época em que o sucesso de um escritor estava condicionado à valorização da grandeza do operário e do trabalho humano, como queria o comunismo russo.

Temos por conseguinte textos sui generis que, de certa maneira, dessacralizam o conto russo. Há, por exemplo, um sujeito que ganha um produto que, ao ser colocado nas paredes de seu diminuto quarto, faz este aumentar assustadoramente de tamanho; um cidadão que vai a um sarau e encontra lá a personagem de seu romance, cantando uma mulher; um homem que, ao aproximar-se para beijar sua amada, vê em sua pupila um homenzinho (sua cópia) , encorajando-o a entrar na pupila. Há também o camarada que vivia tentando conseguir morder o próprio cotovelo.

Enfim, um jorro de criatividade, com a "estética mestra" que somente aos russos parece ser concedida. Vale a citação abaixo, retirada de "dentro da pupila", uma das narrativas do livro:

"Nos seres humanos o amor é tímido e de olhos semicerrados: mergulha no crepúsculo, esgueira-se pelos cantos escuros, sussura, esconde-se atrás das cortinas e ... apaga a luz!".

domingo, 19 de julho de 2009

Presenças do Outro


A constituição de nossa própria identidade, a partir do sentido que atribuimos à presença do Outro, é fato prepoderante em uma visão de linguagem como prática social. No entanto, quem seria ou É esse Outro? Um ser real? Uma construção do discurso? Que marcas ou figuras da linguagem convocamos para dar-lhe textura?


Uma dica de leitura para aqueles que se aventuram nos horizontes da Semiótica e vislumbram respostas para essas perguntas: Presenças do outro, de Eric Landowski, da ed. Perspectiva, 2002. Segue um belíssimo trecho do livro:


O outro não é apenas o dessemelhante – o estrangeiro, o marginal, o excluído – cuja presença presumivelmente incomodaria (por definição) mais ou menos. É também o termo que falta, o complementar indispensável e inacessível, aquele, imaginário ou real, cuja evocação cria em nós a sensação de incompletude ou o impulso de um desejo, porque sua não-presença atual nos mantém em suspenso e como que inacabados à espera de nós mesmos (p. 12).

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Manoel de barros: de novo, o grande (des)inventor das palavras

Uma Didática da Invenção
do “O Livro das Ignorãnças” ed. Civilização Brasileira.

I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Vida aos quarenta


Hoje, 30 de junho de 2009, chego aos quarenta anos: para aqueles que me estimam ou amam, deixo o poema-canção logo abaixo e este recado: além dos desafios e incertezas vindouras, ainda há sangue pulsando, empunhando esse punhado de vida.

Motivo (Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.


Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou se desfaço,

- Não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno e asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.

sábado, 20 de junho de 2009

Valéry: o vaticinador


Já em 1938, Paul Valéry, o pensador, interrogava-se sobre a decadência do exercício intelectual nas artes e ciências. Ao que parece, esta bancarrota continua hodiernamente. De fato, nada parece mais ingênuo e egoísta que o sentir pelo sentir praticado pelo mundo moderno: aguça-se a percepção, mas, por outro lado, priva-se a mente de qualquer possibilidade de construção, adição ou transformação do objeto a ser apre(e)ndido. Qual o preço a ser pago por isso?

Cada vez mais adiante, cada vez mais intenso, cada vez maior, cada vez mais rápido, e sempre mais novo, essas são as exigências, que correspondem necessariamente a certo endurecimento da sensibilidade. Precisamos, para sentir que estamos vivos, de uma intensidade cada vez maior dos agentes físicos e de diversão perpétua... Todo o papel que era desempenhado, na arte de outrora, pelas considerações de duração foi praticamente abolido.Creio que ninguém faz nada hoje para ser apreciado daqui a duzentos anos. O céu, o inferno e a posteridade perderam muito na opinião pública. Aliás, não temos mais tempo de prever e aprender...(Valéry: Degas, dança desenho, p. 147)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Paul Valéry: o artífice do pensamento


Conheci a obra de Valéry por meio da Semiótica. Confesso: prefiro o Valéry Pensador ao Valéry poeta. Contudo, como não ver poesia no modo como ele arquiteta, desenha, ouve ou (des)escreve o pensamento? Não pretendo esgotar essa figura em uma única postagem. Voltaremos a ele, mas deixo, por ora, um pouco de sua prosa poética a respeito das questões que envolvem a existência e o pensamento humano:


Arremessada para bem longe pelas ondas mais altas, a espuma forma flocos lourejantes e irisados que rebentam ao sol, ou que o vento divertidamente persegue e dispersa, quais bestas espantadas pelo salto brusco do mar. Mas eu, eu me deliciava na espuma nascente e virgem, de estranha doçura ao contato...Leite tépido e vaporoso, que com voluptuosa violência aproxima-se, inunda os pés nus, encharca-os, ultrapassa-os e desliza novamente sobre eles, plangendo com sua voz que deixa a praia e retira-se em si mesma; enquanto, presente e viva, a estátua humana crava-se um pouco mais na areia que a arrasta; e a alma, abandonada a essa música tão poderosa e tão sutil, tranquiliza-se, e a segue eternamente. (Eupalinos ou o arquiteto, 1996, p. 107).

sábado, 30 de maio de 2009

A poesia de Julio Cortázar


Cortázar foi um mestre na arte do conto. Aos que não conhecem o viés poético de sua obra, apresento-lhes um belo poema, ou será um conto... que canta e que se conta... ?


PARA CRIS


Agora escrevo pássaros.

Não os vejo chegar, não escolho,

de repente estão aí,

um bando de palavras

a pousar

uma

por

uma

nos arames da página,

entre chilreios e bicadas,

chuva de asas,

e eu sem pão para dar,

tão somente deixo-os vir.

Talvez seja isto uma árvore,

ou quem sabe, o amor.


Tradução Sidnei Schneider, 2007


PARA CRIS


Ahora escribo pájaros.

No los veo venir, no los elijo,

de golpe están ahí,

son esto, una bandada de palabras

posándo se una

a

una

en los alambres de la página,

chirriando, picoteando,

lluvia de alas

y yo sin pan que darles, solamente

dejándolos venir.

Talvez sea eso un árbolo

talvez el amor.


Julio Cortázar, Cinco últimos poemas para CrisSalvo el crepúsculo, 1984.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

VOZES ANOITECIDAS Mia Couto




Os trechos abaixo resumem a essência deste premiado livro de contos, de Mia Couto.



"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes".

"[...] Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte um simples deslizar, um recolher de asas. Não um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
- Mulher - disse ele com voz desaparecida. - Não lhe posso deixar assim.
- Estás a pensar o quê?
- Não posso deixar aquela campa (cova) sem proveito. Tenho que matar-te.
- É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. E uma pena ficar assim.
- Sim, hei-de matar você; hoje no, falta-me o corpo.
Ela ajudou-o a erguer-se e serviu-lhe uma chávena de chá.
- Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
O velho adormeceu, a mulher sentou-se porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu-se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado [...]".


"Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências".




Diante das escolhas feitas pelas personagens desses contos, provocadas ora pela consciência da sua condição, ora pela ausência dela, o autor suscita no leitor sentimentos díspares como a resignação, o alívio, a admiração e até o aperto da poesia, decorrentes das lutas travadas, ali, entre a vida e o seu destino. Recomendo!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Elogio da sombra (Jorge Luis Borges)


Um livro de Borges pelo qual tenho muito apreço é Elogio da Sombra. Quinto livro de poemas e pequenos textos em prosa do autor, foi escrito quando este já contava com 70 anos, em 1969. Selecionei dois poemas que sintetizam o cerne do livro: uma oportunidade de o leitor conhecer o universo de formas, motivos e imagens que, em grande medida, povoa a obra literária desse grande escritor.


As coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento a uma tarde
Sem dúvida inolvidável e já olvidada,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

HERÁCLITO

O segundo crepúsculo.
A noite que mergulha no sono.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo.
A manhã que foi a aurora.
O dia que foi a manhã.
O dia numeroso que será a tarde desgastada.
O segundo crepúsculo.
Esse outro hábito do tempo, a noite.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo...
A aurora sigilosa e na aurora
a inquietude do grego.
Que trama é esta
do será, do é e do foi?
Que rio é este
pelo qual flui o Ganges?
Que rio é este cuja fonte é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta mitologias e espadas?
É inútil que durma.
Corre no sonho, no deserto, num porão.
O rio me arrebata e sou esse rio.
De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.
Talvez o manancial esteja em mim.
Talvez de minha sombra,
fatais e ilusórios, surjam os dias.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ainda o "Manual de Pintura e Caligrafia" de Saramago

Havia já comentado em postagem anterior o domínio da língua Portuguesa por Saramago nesse grande romance, quando não era ainda consagrado com um Nobel de Literatura. Aqui, deixo mais dois belissímos trechos:

Provavelmente, nenhuma vida pode ser contada, porque a vida são páginas de livro sobrepostas ou camadas de tinta que abertas ou descascadas para leitura e visão logo se desfazem em poeira, logo apodrecem: falta-lhes a invisível força que as ligava, o seu próprio peso, a sua aglutinação, a sua continuidade. A vida são também minutos que não podem desligar-se uns dos outros, e o tempo será uma massa pastosa, densa e obscura, no interior da qual nadamos dificilmente, tendo por cima de nós uma claridade indecifrada que devagar se vai apagando, como um dia que, tendo amanhecido, à noite de que saiu regressasse (p. 91).



Particularmente me fascina o jogo geográfico que salta de Itálica (Espanha, perto de Sevilha) para Roma, de Roma para Londres, de Londres para York, de York para Genebra e de Genebra para o lugar onde nasceu Marguerite Vourcenar, que não sei nem vou saber. Porque ela própria, lançando palavras por cima de séculos e de distâncias menores que séculos, pôs Adriano a escrever: «O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo.» Onde assim nasceu Defoe? Onde assim nasceu Rousseau? Onde assim nasceu Yourcenar? Onde nasci eu, pintor, calígrafo, nado-morto enquanto não estiver decidido onde, quando e se um olhar inteligente foi lançado sobre mim mesmo? Falta saber se, desta maneira descoberto o lugar do nascimento, poderemos recuperar e continuar o olhar de entendimento ou, pelo contrário, nos perderemos em novas geografias (p.96).

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Alberto Caeiro em Pessoa

Não Basta

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Mia Couto: a poesia africana


Ser, parecer


Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos


Nocturnamente


Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces


Pequeninura do morto e do vivo


O morto
abre a terra: encontra um ventre

O vivo
abre a terra: descobre um seio

sábado, 4 de abril de 2009

O sertanejo falando João Cabral de Melo Neto

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

(A educação pela pedra, 1962-1965)

sexta-feira, 27 de março de 2009

SAHARA VITAE Soneto de Olavo Bilac

Antônio Cândido, em seu livro "O observador literário", define o soneto como "a vida em resumo". Para o autor, o soneto possui "uma estrutura de obra plástica fechando em si mesma um universo completo". O soneto abaixo muito me impressionou: o tema é banal - a vida como luta do homem contra a adversidade de um mundo insensível -; a seleção lexical nao surpreende, mas... ao se acomodarem à forma reduzida do soneto, as palavras articulam belíssimas metáforas, que nos conduzem a essa visão, esse quadro da vida como arte.


SAHARA VITAE

Lá vão eles, lá vão! O céu se arqueia
Como um teto de bronze infindo e quente,
E o sol fuzila e, fuzilando, ardente
Criva de flechas de aço o mar de areia...

Lá vão, com os olhos onde a sede ateia
Um fogo estranho, procurando em frente
Esse oásis do amor que, claramente,
Além, belo e falaz, se delineia.

Mas o simum de morte sopra: a tromba
Convulsa envolve-os, prostra-os; e aplacada
Sobre si mesma roda e exausta tomba...

E o sol de novo no ígneo céu fuzila...
E sobre a geração exterminada
A areia dorme plácida e tranqüila.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Manuel Bandeira em dois poemas


A morte absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
-Sem deixar sequer esse nome.



Arte de amar


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

sábado, 14 de março de 2009

Machado de Assis em Aforismos


Da literatura brasileira, é este o nome maior, capaz de fazer ecoar a língua portuguesa nos confins do tempo. Vejam algumas citações do autor:



"Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço" (Ensaio: Notícia da Atual Literatura Brasileira - Instinto de Nacionalidade, 1873).


"O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado".


"Há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos".


"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria" (Memórias Póstumas de Brás Cubas).

-"Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio que esta proporção não é obra dos outros, é só minha exlusivamente"(Memorial de Aires).


Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou (Memórias Póstumas de Brás Cubas).


"Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la" (Memórias Póstumas de Brás Cubas).

sábado, 7 de março de 2009

MAGMA: a poesia de Guimarães Rosa


Para aqueles que só conhecem a prosa, apresento alguns versos do grande escritor ROSA, pincelados do seu premiado livro de poemas, intitulado MAGMA.

Rosa foi um desinventor das palavras.

Bibliocausto


E só ficará comigo

o riso rubro das chamas, alumiando o preto

das estantes vazias.

Porque eu só preciso de pés livres,

de mãos dadas,

e de olhos bem abertos.



Revolta


Mas não quero ir para mais longe,

desterrado,

porque a minha pátria é a memória.


Saudade


Pressa!...

Ânsia voraz de me fazer em muitos,

fome angustiosa da fusão de tudo,

sede da volta final

da grande experiência:

uma só alma em um só corpo,

uma só alma-corpo,

uma só,

um!...

Como quem fecha numa gota

o Oceano,

afogado no fundo de si mesmo...




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Saramago e o seu Manual de Pintura e Caligrafia

Saramago, no que diz respeito ao apreço pela linguagem em seu texto literário, pode ser comparado a João Cabral de Melo Neto na Poesia. Este livro não é muito conhecido do grande público, infelizmente. Como o próprio nome sugere, o Manual é um guia para o leitor admirar a obra desse escritor, via linguagem.

Estou analisando o trecho abaixo (brilhante, por sinal) em um artigo sobre semiótica discursiva que estou escrevendo para uma revista. Observem a função de cada palavra na constituição e descrição de um "quadro", que finda por instaurar um observador, capaz de ressentir, avaliar, apreciar ou afastar os objetos, ora aproximando-os, ora afastando-os do seu centro, modulando, assim, a significação. Neste excerto, a personagem principal, um pintor, descreve o seu atelier, após a visita da secretária de um de seus clientes, com a qual acabara de manter relação sexual, e a partida da faxineira, que, logo depois realizou a limpeza do ambiente:



Estou outra vez no silêncio do atelier, com a rua esquecida em baixo das janelas e as outras divisões da casa recuperando a solidão interrompida, enquanto os objectos mudados de lugar, bruscamente transplantados ou apenas arredados um milímetro, se habituam à nova posição, distendendo-se aliviados, como os lençóis lavados na cama, ou pelo contrário procurando acomodar-se à violência, como os lençóis sujos, enrolados no saco da lavanderia, cheirando a corpo frio (SARAMAGO, 1992, p. 70).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

"O outro" Fernando Pessoa



Alberto Caeiro



O Universo

O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Também Sei Fazer Conjeturas

Também sei fazer conjeturas.

Há em cada cousa aquilo que ela é que a anima.

Na planta está por fora e é urna ninfa pequena.

No animal é um ser interior longínquo.

No homem é a alma que vive com ele e é já ele.

Nos deuses tem o mesmo tamanho

E o mesmo espaço que o corpo

E é a mesma cousa que o corpo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O eu, as coisas e a linguagem



Recebi inúmeros emails e alguns comentários a respeito da beleza deste poema. Posto novamente, para os novos visistantes.

"Eita, pernambucano porrreta!!!"


"Dúvidas apócrifas de Moore"


Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
A coisa de que se falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?
Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?

João Cabral de Melo Neto

O livro das perguntas de Pablo Neruda


Livro, no mínimo, insólito... que nos reporta à poesia oriental (Haikai).

Observem a riqueza de matizes metafóricos, resultantes da coexistência de isotopias durante a leitura: haja imaginação...



onde termina o arco-íris,

em tua alma ou no horizonte?


Diz-me, a rosa está nua,

ou só tem esse vestido?


Porque se suicidam as folhas

quando se sentem amarelas?


Quantas igrejas tem o céu?


Como se chama uma flor

que voa de pássaro em pássaro?


e onde termina o espaço

se chama morte ou infinito?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino


Calvino é lembrado como um dos grandes gênios da narrativa. Seu Livro "As cidades Invisíveis" é considerado por muitos críticos (inclusive pelo próprio Calvino) uma reflexão aprofundada da criação literária, uma espécie de mini-tratado da Literatura.

O livro consta de pequenos textos, que descrevem cidades imaginadas, ou melhor, relatadas pelo mercador de Veneza, Marco Polo, ao Imperador Kublai Khan: uma clara alusão ao clássico "As mil e uma noites". Dois detalhes merecem destaque: a) cada cidade recebe um nome de uma Mulher, b) cada cidade suscita um mundo que se constitui através dos sentidos (da audição, do odor, do paladar e de um olhar que não é o ver, mas o emergir na coisa); ou seja, cada texto porta uma revelação, mundos utópicos que são somente descortinados quando deitamos nosso olhar sobre ínfimos detalhes, à cata das ambigüidades e metáforas. A descrição espacial das cidades envolvidas nessa configuração imaginária é representativa da condição humana, das oscilações pelas quais o homem passa em seu constante embate com a realidade.



As cidades e o desejo
3

Há duas maneiras de se alcançar Despina: de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar.
O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, os sobressaltos das birutas brancas e vermelhas, a fumaça das chaminés, imagina um navio; sabe que é uma cidade, mas a imagina como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento que enche as suas velas ainda não completamente soltas, ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro, e imagina todos os portos, as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam nos cais, as tabernas em que tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça umas das outras, as janelas térreas iluminadas, cada uma com uma mulher que se penteia.
Na neblina costeira, o marinheiro distingue a forma da corcunda de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando; sabe que é uma cidade, mas a imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforjes de fruta cristalizada, vinho de tâmaras, folhas de tabaco, e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sombra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam descalças e movem os braços para dentro e para fora do véu.
Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe; é assim que o cameleiro e o marinheiro vêem Despina, cidade de confim entre dois desertos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A poesia de Borges

Sem comentários...
Afterglow


Sempre é comovedor o ocaso
por mais indigente e charro que seja,
porém mais comovedor ainda
é aquele brilho desesperado e final
que enferruja a planície
quando o sol último afundou.
Nos dói suster essa luz intensa e distinta,
essa alucinação que impõe ao espaço
o unânime medo da sombra
e que cessa de repente
quando notamos sua falsidade,
como cessam os sonhos
quando sabemos que sonhamos.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O fantástico Borges e o Minotauro


Sem sombra de dúvida, Jorge Luis Borges é um dos grandes nomes da literatura mundial. Em sua escrita, precipitadamente rotulada de "fantástica", convergem não somente a erudição e o formalismo literário, mas também o tempo, os sonhos e a imaginação. Borges fazia questão de frisar que sempre fora um leitor voraz. A escrita seria apenas um exercício, uma consequência do hábito da leitura. Sou suspeito para falar de Borges: sua obra iniciou-me na Literatura e permanece encantadora e desafiadora para mim.

O conto dessa postagem releva um pouco dos "labirintos" mágicos da linguagem de Borges. Asterion é um dos nomes atribuídos ao Minotauro.




A Casa de Asterion
Jorge Luis Borges
Para Marta Mosquera Eastman

E a rainha deu à luz um
filho que se chamou Asterion.
APOLODORO: Biblioteca, III, I.

Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei no devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de casa, mas também é verdade que as suas portas (cujo número é infinito*) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas femininas nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Por isso mesmo, encontrará uma casa como não há outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egito.) Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra afirmação ridícula é que eu, Asterion, seja um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não existe uma fechadura? Mesmo porque, num entardecer, pisei na rua; se voltei antes da noite, foi pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e iguais, como a mão aberta. O sol já se tinha posto mas o desvalido pranto de um menino e as preces rudes do povo disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, se prosternava; alguns se encarapitavam na estilóbata do templo das Tochas, outros juntavam pedras. Algum deles, creio, se ocultou no mar. Não é em vão que uma rainha foi minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que o queira minha modéstia.
O fato é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escrita. As enfadonhas e triviais minúcias não encontram espaço em meu espírito, capacitado para o grande; jamais guardei a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. às vezes o deploro, porque as noites e os dias são longos.
Claro que não me faltam distrações. Como o carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até cair no chão, estonteado. Oculto-me à sombra duma cisterna ou à volta de um corredor e divirto-me com que me busquem. Há terraços donde me deixo cair, até ensangüentar-me. A qualquer hora posso fazer que estou dormindo, com os olhos cerrados e a respiração contida. (às vezes durmo realmente, às vezes já é outra a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de todos os brinquedos, o que prefiro é o do outro Asterion. Finjo que ele vem visitar-me e que eu lhe mostro a casa. Com grandes referências, lhe digo "Agora voltamos à encruzilhada anterior" ou "Agora desembocamos em outro pátio" ou "Bem dizia eu que te agradaria este pequeno canal" ou "Agora vais ver uma cisterna que se encheu de areia" ou "Já vais ver como o porão se bifurca". Às vezes me engano e rimo-nos os dois, amavelmente.
Não tenho pensado apenas nesses brinquedos; tenho também meditado sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, um pesebre; são catorze (são infinitos) os pesebres, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Todavia, de tanto andar por pátios com uma cisterna e com poeirentas galerias de pedra cinzenta, alcancei a rua e vi o templo das Tochas e o mar. Não entendi isso até uma visão noturna me revelar que também são catorze (infinitos) os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, catorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma só vez: em cima, o intrincado sol; embaixo, Asterion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro.
A cada nove anos, entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouço seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para buscá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensangüente as mãos. Onde caíram, ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem sejam, mas sei que um deles, na hora da morte, profetizou que um dia vai chegar meu redentor. Desde então a solidão não me magoa, porque sei que meu redentor vive e que por fim me levantará do pó. Se meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. Oxalá me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? — me pergunto. Será um touro, ou um homem? Será talvez um touro com cara de homem? ou será como eu?
O sol da manhã rebrilhou na espada de bronze, já não restava qualquer vestígio de sangue.
— Acreditarás, Ariadne? — disse Teseu. — O minotauro apenas se defendeu.

* O original diz catorze, mas sobram motivos para inferir que, na boca de Asterion, esse adjetivo numeral valha por infinitos.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Um pouco da poesia de Manoel de Barros


No descomeço era o verbo
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que á a voz de fazer
nascimentos-
O verbo tem que pegar delírio.

MANOEL DE BARROS

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A você, Lívia...

Não me deixes só diante de ti,
não me entregues à noite nua,
à lua aguda das encruzilhadas,
a ser apenas estes lábios que te bebem.

Quero ir a ti vindo de ti mesma
com esse movimento que fustiga teu corpo,
estende-o sob o vento como um velame preto.

Quero chegar a ti vindo de ti mesma,
olhando-te de teus olhos,
beijando-te com essa boca que me beija.

Não pode ser que sejamos dois,
não pode ser que sejamos dois.

Cortázar


O amor é sempre esse devir: sermos um e sermos dois, completamente!

Obra prima da Literatura

O conto abaixo foi brilhantemente analisado por Greimas, em sua obra Da Imperfeição. As possibilidades de análise semiótica, todavia, não se esgotam na apreensão da experiência estética (estesia) cujo objeto é o próprio texto literário (no caso, o conto de Cortázar). Questões enunciativas como a debreagem, o ponto de vista e a convocação do observador fazem deste texto um convite à investigação semiótica do sentido. Cortázar sempre me impressionou com seus contos: este é uma obra prima da literatura, em poucas linhas.
  • Continuidade dos Parques (Julio Cortázar)
Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns arrendamentos, voltou ao livro com a tranqüilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado com uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde, e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava, e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana da colina.
Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasse, sem dó nem piedade, interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.
Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Do caminho oposto, ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois um longo corredor, uma escada acarpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O eu, as coisas e a linguagem

"Dúvidas apócrifas de Marianne Moore"

Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
A coisa de que se falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?
Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?
João Cabral de Melo Neto