
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
Final de ano (Borges)
de substituir um dois por um três
nem essa metáfora baldia
que convoca um lapso que morre e outro que surge,
nem o cumprimento de um processo astronómico
aturdem e solapam
o altiplano desta noite
e nos obrigam a esperar
as doze irreparáveis badaladas.
A causa verdadeira
do enigma do Tempo;
é o assombro ante o milagre
de que a despeito de que somos
as gotas do rio de Heraclito,
perdure algo em nós: