quinta-feira, 16 de abril de 2009

Alberto Caeiro em Pessoa

Não Basta

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Mia Couto: a poesia africana


Ser, parecer


Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos


Nocturnamente


Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces


Pequeninura do morto e do vivo


O morto
abre a terra: encontra um ventre

O vivo
abre a terra: descobre um seio

sábado, 4 de abril de 2009

O sertanejo falando João Cabral de Melo Neto

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-la na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

(A educação pela pedra, 1962-1965)

sexta-feira, 27 de março de 2009

SAHARA VITAE Soneto de Olavo Bilac

Antônio Cândido, em seu livro "O observador literário", define o soneto como "a vida em resumo". Para o autor, o soneto possui "uma estrutura de obra plástica fechando em si mesma um universo completo". O soneto abaixo muito me impressionou: o tema é banal - a vida como luta do homem contra a adversidade de um mundo insensível -; a seleção lexical nao surpreende, mas... ao se acomodarem à forma reduzida do soneto, as palavras articulam belíssimas metáforas, que nos conduzem a essa visão, esse quadro da vida como arte.


SAHARA VITAE

Lá vão eles, lá vão! O céu se arqueia
Como um teto de bronze infindo e quente,
E o sol fuzila e, fuzilando, ardente
Criva de flechas de aço o mar de areia...

Lá vão, com os olhos onde a sede ateia
Um fogo estranho, procurando em frente
Esse oásis do amor que, claramente,
Além, belo e falaz, se delineia.

Mas o simum de morte sopra: a tromba
Convulsa envolve-os, prostra-os; e aplacada
Sobre si mesma roda e exausta tomba...

E o sol de novo no ígneo céu fuzila...
E sobre a geração exterminada
A areia dorme plácida e tranqüila.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Manuel Bandeira em dois poemas


A morte absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
-Sem deixar sequer esse nome.



Arte de amar


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

sábado, 14 de março de 2009

Machado de Assis em Aforismos


Da literatura brasileira, é este o nome maior, capaz de fazer ecoar a língua portuguesa nos confins do tempo. Vejam algumas citações do autor:



"Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço" (Ensaio: Notícia da Atual Literatura Brasileira - Instinto de Nacionalidade, 1873).


"O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado".


"Há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos".


"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria" (Memórias Póstumas de Brás Cubas).

-"Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio que esta proporção não é obra dos outros, é só minha exlusivamente"(Memorial de Aires).


Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou (Memórias Póstumas de Brás Cubas).


"Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la" (Memórias Póstumas de Brás Cubas).

sábado, 7 de março de 2009

MAGMA: a poesia de Guimarães Rosa


Para aqueles que só conhecem a prosa, apresento alguns versos do grande escritor ROSA, pincelados do seu premiado livro de poemas, intitulado MAGMA.

Rosa foi um desinventor das palavras.

Bibliocausto


E só ficará comigo

o riso rubro das chamas, alumiando o preto

das estantes vazias.

Porque eu só preciso de pés livres,

de mãos dadas,

e de olhos bem abertos.



Revolta


Mas não quero ir para mais longe,

desterrado,

porque a minha pátria é a memória.


Saudade


Pressa!...

Ânsia voraz de me fazer em muitos,

fome angustiosa da fusão de tudo,

sede da volta final

da grande experiência:

uma só alma em um só corpo,

uma só alma-corpo,

uma só,

um!...

Como quem fecha numa gota

o Oceano,

afogado no fundo de si mesmo...