sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Retorno

Depois de longas e merecidas férias, retomo as postagens no blog. Como devem lembrar os amigos, prosseguiríamos com as postagens sobre o tempo. Entretanto, recebi hoje um inesperado presente de Lívia, minha companheira: o livro Ensaios Fotográficos, de Manoel de Barros. O livro (que eu não conhecia) é repleto de belas imagens-metáforas e de aprumados jogos linguísticos. Como bem diz o autor, em relação à Língua Portuguesa, "Estudei-a com força para poder errá-la ao dente".
Afora o poema-dedicatória escolhido por Lívia, que guardo pra mim, este, transcrito abaixo, logo me chamou atenção:


COMPARAMENTO


"Os rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau,
folhas secas, penas de urubu
E demais trombolhos.
Seria como o percurso de uma palavra antes de
chegar ao poema.
As palavras, na viagem para o poema, recebem
nossas torpezas, nossas demências, nossas vaidades.
E demais escorralhadas.
As palavras se sujam de nós na viagem.
Mas desembarcam no poema escorreitas: como que
filtradas.
E livres das tripas do nosso espírito."
(O quadro "Solidão vertical"que ilustra a postagem é de Martha Barros, filha do poeta).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Tempo de Férias!



Peço desculpas pela escassez de postagens: estou de férias (mas, por incrível que pareça, extremamente atarefado). Deixo, no entanto, dois poemas de Drummond sobre o tempo, a fim de adimplir a agenda do blog:


AMOR E SEU TEMPO


Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe.

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.



Os Ombros Suportam o Mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem
A vida apenas, sem mistificação.












segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

As aporias do tempo


O ano começa! Espero tê-los como visitantes (e como comentadores), em 2010. Pretendo, doravante, explorar textos atinentes não somente à Literatura, mas também à Música, à Semiótica Discursiva e à Estilística.

Começo com uma série de postagens sobre o Tempo. Por ora, deixo somente a reflexão sobrevinda da leitura do texto abaixo:

Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.
(JÚLIO CORTÁZAR, Histórias de cronópios e de famas)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Boas Festas!

Finda mais um ano. Agradeço aos que visitam o blog. Encerro as postagens de 2009 com dois poemas de dois Escritores de minha predileção: Machado de Assis e Jorge Luis Borges. Até 2010.

Soneto de Natal (Machado de Assis)

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"


Final de ano (Borges)
Nem o pormenor simbólico
de substituir um dois por um três
nem essa metáfora baldia
que convoca um lapso que morre e outro que surge,
nem o cumprimento de um processo astronómico
aturdem e solapam
o altiplano desta noite
e nos obrigam a esperar
as doze irreparáveis badaladas.
A causa verdadeira
é a suspeita geral e confusa
do enigma do Tempo;
é o assombro ante o milagre
de que a despeito de infinitos acasos,
de que a despeito de que somos
as gotas do rio de Heraclito,
perdure algo em nós:
imóvel.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Será arte?

Hoje, li o curtíssimo poema de Ferreira Gullar, intitulado "Pintura". Encontrei-o no livro "Barulhos", em rápida visita a uma livraria. O que muito me chamou a atenção foi o fato de que esse maranhense-comunista, além de Poeta, é também pintor. Deixo aqui, uma réstia da mistura de suas múltiplas faces.


Pintura

Eu sei que se tocasse
Com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos

Dilema

A pretensão me degrada
a humildade me deprime
e assim a vida é lesada:
ora é virtude ora é crime


Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
Outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O Ciúme e a Semiótica


“Como ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo em sê-lo, porque temo que o meu ciúme fira o outro e porque me deixo sujeitar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.” (Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso).


Esta postagem é dedicada ao ciúme: "estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem"(Dicionário Houaiss).


Na verdade, o repentino interesse pelo tema deve-se à leitura (bem como às proveitosas discussões com o prof. Américo) do clássico Semiótica das paixões, de Greimas e Fontanille. Nesta obra, os autores se valem de um aparato teórico rigoroso, para simularem e darem conta da complexa manifestação dessa intrigante paixão humana. Sem pretensão de esgotar ou aprofundar o assunto, uma vez que minha leitura ainda é parcial, deixo aqui somente pequenos fragmentos de texto desse livro surpreendente, ainda pouco explorado pelos semioticistas:


" O ciúme aparece de súbito no fundo de uma relação intersubjetiva complexa e variável, presente por definição ao longo de todo percurso passional: o temor de perder o objeto só se compreende aqui em presença de um rival ao menos potencial ou imaginário, e o temor do rival nasce da presença do objeto de valor que funciona como pivô" (p. 171).


"Se o espetáculo fundamental do ciúme é o da junção modalizada do rival e do objeto, o ciumento é, enquanto observador, excluído da relação de junção [...]. É por isso que o sujeito ciumento se acha na impossibilidade de segmentar de outra forma o dispositivo actancial, e a cena odiada ou apreendida se lhe impõe; ele mesmo se apresenta, com relação a seu próprio simulacro passional, como sujeito virtualizado, sujeito sem corpo que não pode ter acesso à cena[...]. O observador do ciúme será efetivamente um 'espectador', isto é, observador cujas coordenadas espaço-temporais referem-se às do espetáculo que lhe é oferecido, mas que não pode, em caso algum, figurar como ator nessa mesma cena" (p. 181).

domingo, 22 de novembro de 2009

Meus Eus e os Outros


Desculpem o sintetismo das últimas postagens. Motivos? Há de sobra, mas não merecem comentários. Prometo alongar a próxima postagem. Deixo abaixo dois poemas de Pessoa.



Tenho tanto sentimento

Que é freqüente persuadir-me

De que sou sentimental,

Mas reconheço, ao medir-me,

Que tudo isso é pensamento,

Que não senti afinal.


Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra vida que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.


Qual porém é a verdadeira

E qual errada, ninguém

Nos saberá explicar;

E vivemos de maneira

Que a vida que a gente tem

É a que tem que pensar.


Fernando Pessoa


Vivem em nós inúmeros;

Se penso ou sinto, ignoro

Quem é que pensa ou sente.

Sou somente o lugar

Onde se sente ou pensa.


Tenho mais almas que uma.

Há mais eus do que eu mesmo.

Existo todavia

Indiferente a todos.

Faço-os calar: eu falo.


Os impulsos cruzados

Do que sinto ou não sinto

Disputam em quem sou.

Ignoro-os.

Nada ditam

A quem me sei: eu 'screvo.


Fernando Pessoa (Ricardo Reis)