segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O delírio de Rosa

Delírio /Guimarães Rosa (extraído do livro de poemas "Magma")

No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios...
Deixa aberta a janela...

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna...
Apaguemos a luz...

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?...

Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte,
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti....

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sigismund Krzyzanowski: O marcador de páginas


Pouco se sabe sobre esse escritor russo (cujo nome polonês é impronunciável), descoberto depois da Perestroika, quando já era praticamente impossível saber mais detalhes sobre sua biografia. Fotografia, por exemplo, nenhuma. Seu único livro conhecido - O marcador de páginas - é composto de seis novelas escritas durante a década de 1920. São seis narrativas originais, calcadas num realismo fantástico construído de maneira fascinante, que bem poderiam ter saído das páginas de Jorge Luis Borges, se não fosse o detalhe de Krzyzanowski ter vivido na URSS durante os anos 20-40, época em que o sucesso de um escritor estava condicionado à valorização da grandeza do operário e do trabalho humano, como queria o comunismo russo.

Temos por conseguinte textos sui generis que, de certa maneira, dessacralizam o conto russo. Há, por exemplo, um sujeito que ganha um produto que, ao ser colocado nas paredes de seu diminuto quarto, faz este aumentar assustadoramente de tamanho; um cidadão que vai a um sarau e encontra lá a personagem de seu romance, cantando uma mulher; um homem que, ao aproximar-se para beijar sua amada, vê em sua pupila um homenzinho (sua cópia) , encorajando-o a entrar na pupila. Há também o camarada que vivia tentando conseguir morder o próprio cotovelo.

Enfim, um jorro de criatividade, com a "estética mestra" que somente aos russos parece ser concedida. Vale a citação abaixo, retirada de "dentro da pupila", uma das narrativas do livro:

"Nos seres humanos o amor é tímido e de olhos semicerrados: mergulha no crepúsculo, esgueira-se pelos cantos escuros, sussura, esconde-se atrás das cortinas e ... apaga a luz!".

domingo, 19 de julho de 2009

Presenças do Outro


A constituição de nossa própria identidade, a partir do sentido que atribuimos à presença do Outro, é fato prepoderante em uma visão de linguagem como prática social. No entanto, quem seria ou É esse Outro? Um ser real? Uma construção do discurso? Que marcas ou figuras da linguagem convocamos para dar-lhe textura?


Uma dica de leitura para aqueles que se aventuram nos horizontes da Semiótica e vislumbram respostas para essas perguntas: Presenças do outro, de Eric Landowski, da ed. Perspectiva, 2002. Segue um belíssimo trecho do livro:


O outro não é apenas o dessemelhante – o estrangeiro, o marginal, o excluído – cuja presença presumivelmente incomodaria (por definição) mais ou menos. É também o termo que falta, o complementar indispensável e inacessível, aquele, imaginário ou real, cuja evocação cria em nós a sensação de incompletude ou o impulso de um desejo, porque sua não-presença atual nos mantém em suspenso e como que inacabados à espera de nós mesmos (p. 12).

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Manoel de barros: de novo, o grande (des)inventor das palavras

Uma Didática da Invenção
do “O Livro das Ignorãnças” ed. Civilização Brasileira.

I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Vida aos quarenta


Hoje, 30 de junho de 2009, chego aos quarenta anos: para aqueles que me estimam ou amam, deixo o poema-canção logo abaixo e este recado: além dos desafios e incertezas vindouras, ainda há sangue pulsando, empunhando esse punhado de vida.

Motivo (Cecília Meireles)
Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.


Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou se desfaço,

- Não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno e asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.

sábado, 20 de junho de 2009

Valéry: o vaticinador


Já em 1938, Paul Valéry, o pensador, interrogava-se sobre a decadência do exercício intelectual nas artes e ciências. Ao que parece, esta bancarrota continua hodiernamente. De fato, nada parece mais ingênuo e egoísta que o sentir pelo sentir praticado pelo mundo moderno: aguça-se a percepção, mas, por outro lado, priva-se a mente de qualquer possibilidade de construção, adição ou transformação do objeto a ser apre(e)ndido. Qual o preço a ser pago por isso?

Cada vez mais adiante, cada vez mais intenso, cada vez maior, cada vez mais rápido, e sempre mais novo, essas são as exigências, que correspondem necessariamente a certo endurecimento da sensibilidade. Precisamos, para sentir que estamos vivos, de uma intensidade cada vez maior dos agentes físicos e de diversão perpétua... Todo o papel que era desempenhado, na arte de outrora, pelas considerações de duração foi praticamente abolido.Creio que ninguém faz nada hoje para ser apreciado daqui a duzentos anos. O céu, o inferno e a posteridade perderam muito na opinião pública. Aliás, não temos mais tempo de prever e aprender...(Valéry: Degas, dança desenho, p. 147)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Paul Valéry: o artífice do pensamento


Conheci a obra de Valéry por meio da Semiótica. Confesso: prefiro o Valéry Pensador ao Valéry poeta. Contudo, como não ver poesia no modo como ele arquiteta, desenha, ouve ou (des)escreve o pensamento? Não pretendo esgotar essa figura em uma única postagem. Voltaremos a ele, mas deixo, por ora, um pouco de sua prosa poética a respeito das questões que envolvem a existência e o pensamento humano:


Arremessada para bem longe pelas ondas mais altas, a espuma forma flocos lourejantes e irisados que rebentam ao sol, ou que o vento divertidamente persegue e dispersa, quais bestas espantadas pelo salto brusco do mar. Mas eu, eu me deliciava na espuma nascente e virgem, de estranha doçura ao contato...Leite tépido e vaporoso, que com voluptuosa violência aproxima-se, inunda os pés nus, encharca-os, ultrapassa-os e desliza novamente sobre eles, plangendo com sua voz que deixa a praia e retira-se em si mesma; enquanto, presente e viva, a estátua humana crava-se um pouco mais na areia que a arrasta; e a alma, abandonada a essa música tão poderosa e tão sutil, tranquiliza-se, e a segue eternamente. (Eupalinos ou o arquiteto, 1996, p. 107).